20111118

59

oiço. como o som do dedilhar de uma guitarra no velho oeste. cordas secas. duras da ferrugem e do tempo. já nem sei de quem são as minhas mãos quando as vejo tocar. neste sol que abrasa de céu azulão-solitário com uma única nuvem que definha à passagem. o ar que respiro é seco e em seco engulo o nada que existe, dentro da boca que à muito perdeu o gosto. este tempo quente confunde-me, qual prisioneiro. liberto após longa sentença. O que faria eu com a liberdade caso ma fosse oferecida? não saberia sequer como pegá-la, torná-la minha depois de tanto tempo preso. bastaria falar-lhe ao ouvido? - questiono ao de leve, esboçando um sorriso - inclinar-me sobre toda ela, afastar-lhe o cabelo e bem junto ao ouvido sussurrar-lhe pausadamente "liberdade..... vem comigo!" ao que ela responderia que sim. que seria minha e eu seria dela e o mundo seria por fim tudo aquilo que estivesse ao alcance de nossas mãos. eu e a liberdade, livres... contudo olho para as minhas roupas gastas e percebo a realidade. sou prisioneiro, envelhecido e desgastado. com palavras que me prenderam ao solo gretado me fadei. hoje tudo o que posso é sonhar com aquilo que ainda não vem.

20111106

58

Não sei bem como me pus nesta situação, mas hoje dei por mim a passear pelas ruas desertas de Lisboa. Não as adjacentes, mas as que realmente retratam os contornos da nossa nação. O espirito da capital esculpido nos cantos dos predios pombalinos que rasgam o ceu até tocarem nas estrelas. Andei. Andei muito. Quilometros de chuva traiçoeira, que nem chove nem deixa chuver. Pensei em tanto. Em mim e nos "tu"'s que fui conhecendo. As facetas desta vida deixam-me preplexa, no sentido em que cada vez mais me arrependo de tudo o que fiz, e em especial do que não fiz, do que não disse e, certamente, do que não vivi. Vidas perfeitas aparte, sei, hoje, o preço da minha independencia. Foste tu. Um "tu" que já não volta pois tambem o meu "eu", mais feliz, ficou num passado mais que perfeito.

20111023

57

Começa com uma brincadeira de luzes. Ligas uma e outra e mais outra. Vais acendendo assim tudo à volta. Os arrepios, os assopros. A estática ao máximo. É enternecedor lembrar os inícios de todos os invernos. Toda a sensação que cai em mim, quando elas regressam. As chuvas. Quando a primeira gota anuncia o inicio do frio eu confirmo, com mudez, que estas sempre a meu lado.

20111003

56

É difícil olhar para o passado com vontade de mais, pois o mais não chega. Perdeu a força e ficou-se por ali, um caminho no meio do nada e em direcção a lado algum. Pesam-me os suspiros de outroras, as faltas de ar. Faltam-me recordações demais do que existe por viver e que nunca jamais aconteceu. E sim, é nesta posição encurvada, de quem pensa, de quem pondera, de quem calcula demasiado bem, muito para alem do que devia, aquilo que quer fazer que me venho a encontrar. No meio deste nirvana paro e olho o reflexo. Sou eu, mas sem estofo e olhar ligeiramente mais cansado que o habitual. A vida tem destas coisas. Os contornos, os percursos.. levam-me a crer que há tanto mais para lá do que eu julgo que sei, que penso que jamais em tempo algum vou conseguir compreender o que faço eu aqui, no meio de toda esta confusão. Mas o meu passo é demorado, o cigarro está a meio e eu tenho todo o tempo do mundo para me compreender a mim. E tu?

20110722

55

É como que um feitiço. Desenvolto num olhar. Persegui-te na esperança de seres palavra diferente em pele e osso. Por ruas e ruelas, caves, esplanadas. Encontrei-te imóvel, junto àquela parede. Não havia muita luz, mas os meus olhos viam na perfeição. Autorizei o meu corpo a desferir em ti tal brutidão, tanta quanto a paixão que sentia. No meu querer forrado a fogo e aço estás entre parede. Nada mais. Espaço microscopico. Colam-se as bocas. Quase não existe espaço para respirar. Com insolenca resolves usar o dom da palavra. Arrastas a mão pla minha nuca acima e puxas-me o cabelo. Forças-me a juntar o ouvido à tua boca e sussurras 'Meto a língua.... onde?'. 'Mete-a..!' respondo. Mete-me a língua, no momento fugaz que nos encontramos. Mete-me no dentro, no quase dentro de mim, que também é teu. Mete. Mete não só a língua mas também aquilo que te move, que te rege. Mete aspirações, mete sonhos. Mete. E ao meter deixa-te ficar. Pois a verdade é que de fugaz, este momento, tem o nome.

20110703

54

Até ao sitio onde te sigo... Fora do sonho, dentro da imaginação. Onde te sigo... A ideia. A ambição. Sigo o inalcançável e o arrojado. Sigo, de longe. Investigo o teu bem estar e a tua vida. Quase com zelo, mantenho a distancia. Milimetricamente controladas vivemos no balançar dos dias e das noites, neste pulsar, neste batimento ameno que não mata mas moí e vai moendo. No meio de toda desta confusão velo-te e sei que tu, por tua vez, velas por mim também. Interessante este prémio de consulação que nem nos reúne nem nos aparta.

20110616

53

Se pudesse perdia-me na hipótese de conhecer esse teu azul. Não devo, sabes? Essas coisas de jovem são demasiado agitadas para mim. Trazem demasiado alarido a este velho coração, que não se quer mexer muito, apenas observar a paisagem. Ainda assim não consigo deixar de achar piada a esse teu jeito, à novidade, a qual não consegues deixar de acartar. Divirto-me a pensar nos enlaces e desenlaces. Na inocência por trás dessa tua opinião acerca dos amores e desamores do mundo e das pessoas. É essa, a tua maneira bonita de ver as coisas, a tua maior beleza. A tua maior qualidade é existires, para me lembrares que já fui como tu ♥

20110615

52

O que se deve e o que não se deve fazer na tua presença. Rascunho de tela. De obra. Drama em curta-metragem. Tu. O principal. O objecto, a obra, o ser. Talho caminho até ti. Tentação. Personificas gestos e palavras imaginados. E se soubesses que és tão bela como aquilo que gostarias de ser? Então te confesso que tocar-te é como saborear algodão-doce. O simples de te cumprimentar desenrola-se com naturalidade. Desenlace. Beber-te assim, como te vejo, é um concerto a céu aberto sem barreiras e sem fronteira de se ouvir.

20110523

51

Era uma vez, não há muito tempo, uma menina que sonhava. Era jovem, a menina. Nos seus sonhos era levada, de par em par, a trajectos alcansaveis, por um esticar de um braço, de sonhos maravilhosos. E ela sonhava. Sonhava muito. Pensava no futuro que ia ter. Na família que poderia ter. No amor inabalável e inquestionavel que sem sombra de duvidas sentia que era para um sempre. Perfeito. Sonhava, menina que era, que com o tempo todos os contratempos do mundo chegariam a um fim, e o bem triunfaria. O trabalho organizar-se-ia por fim. Créditos seriam atribuídos. Todo o esforço valeria a pena. Toda a dor. Toda a magoa. Tudo teria sido em prol do seguimento natural da vida. Tudo sonhado, projectado. Para um dia poder adormecer nos braços. Naqueles braços. E descansar o sono dos justos. Mas a menina desapareceu. Tal como o sonho. Foi-se para não voltar. E silencio. Nada mais. Hoje não existe nenhuma menina. Apenas uma mulher de casca remotamente parecida. Um invólucro. Como o papel de um rebuçado depois de o comermos: um pedaço de plástico sem propósito de existir mas que resiste a décadas de desintegração.

20110518

50

Ouvi as tuas gentis palavras. Nessa manhã não esperava ouvir absolutamente nada de bom ou esperançoso. As tuas primeiras palavras do dia. Nascidas por entre os teus lábios exóticos. Para mim brotou, de entre o teu ser, o verbo. Terno e preocupado. Respondi de imediato que estava bem e que não haviam motivos para preocupações. Existem coisas piores, garanti-te. Tu sorriste. Forçaste-me então a reparar novamente no teu olhar curiosamente invasivo. Se te tivesse que descrever, para outros olhos imaginarem, pintar-te-ia como a senhora e dona da calma do mundo. Uma Sara Tavares que não tocas notas mas sim corações, de forma contagiante. O teu cabelo apanhado relembrar-me-ia de tempos passados, qual Odisseia. Acredito que passa por ti uma corrente de um rio no qual nasce a tranquilidade. No fundo, só posso abençoar aquele que te merecer.

20110429

49

Voltas, voltas e voltas a girar.
Apareces de novo para mim.
Como nuvem,
sopro doce de ser.
Tanto que te vejo em mim.
Em palpitações.
Antecipações.
Derramas o teu mel por mim,
sem saber,
e eu consumo o teu dom natural com fervor.
Se o meu olhar fosse fatal,
estarias morta, certamente,
de amores por mim,
assim que me visses.

48

Hoje senti o passar do tempo correr por nós. Num ápice. Como se, simplesmente, todos estes anos de distancia me tivessem caído na consciência. Somente hoje. Naquele momento. Falámos, como outrora, naquele mesmo banco que tantas vezes nos ouviu, a nós e às nossas conversas, ora intensas ora amenas. Falávamos barbaridades do dia-a-dia, do alheio, de nós, das nossas vidas de hoje em dia e de como as levamos para a frente, ou ao menos não para trás. Tudo me pareceu, um tanto ou quanto finito, toda aquela conversa. É engraçado senti-lo, no mínimo: Como tudo o que fazemos para sermos felizes nos leva para longe do felizes que fomos um dia e de como isso é bom. Ir embora dos sentimentos demasiado grandes, sufocantes. Foram momentos que demoraram. Demoraram para desaparecer e hoje são apenas lugares vazios numa estante. São livros que desapareceram com o passar dos anos, quis Deus fazê-lo por bem, e gradualmente, como se de memorias se tratassem. Aos poucos foste assim tornando-te mais fraca em mim. Primeiro a admiração, o orgulhos, o brio com que te via. Depois o carinho, o amor. A seguir passou a uma amizade temperada numa abundância de ausências. E hoje, somos conhecidas. Só. E sabes que mais, não encontro razões para estares presente na minha vida se na verdade nunca o foste. Presente.. Nunca quis algo deslavado como a nossa pseudo-amizade tem sido. Não me tem sabido bem. Entristeces-me, por agires de acordo com quem és. Mas se eu quero ser feliz, isso passa por não te ver. Entendo, por fim, que nos tornámos em meras conhecidas.. e conhecidas, há muitas.

20110411

47

Estou cansada. Dentro desta cidade, mãe ausente, dos meus momentos mais secretos, me encontro debaixo das luzes amarelo-torradas dos candeeiros nocturnos. Porque será que quero tanto fugir. Fugir.. Fugir desta pessoa que sou, com tanta força? No final de contas penso que acabo por perceber que é (que sou) inevitável! Eu sou assim. E que assim serei. E se não me aceitar verdadeiramente, como poderiam outras faze-lo?! Na verdade, serei sempre assim, inevitavelmente relaxada, longe dos objectivos de vida de tantas outras. E tantas foram. Estou cansada de te procurar em todas e constatar, a triste realidade, que não és. O 'tu' que desejo nem sei se existe ou se se revelará em alguma altura. Por isso vou ficando. Definhando. Passando. Correndo kilometros. Conduzindo asfaltos. E as luzes amarelo-torradas dos candeeiros de rua são as minhas testemunhas. E o frio é o meu cobertor. E tu és a minha essência perdida. E eu?! Sou tua! E nem sequer te conheço..

20110405

46

É difícil dizer com que linhas nos cosemos. A adaptação da pessoa ao tempo e ao espaço muda-nos, tal qual muda a estação. Somos diferentes, eu e tu. Num expoente elevado à profundidade do que se passou. Observando à lupa de cada uma, ora se torna positivo ora negativo. Mas de entre todas as adversidades, e se te pudesse dizer, neste pequeno sitio, espaço de tempo de antena (que ninguém nos ouve, ou lê) dir-te-ia que sinto saudades, esquecendo toda a dormência que me paralisa.

20110402

45

Ao inicio é fácil. Falamos. Trocamos olhares breves. Sorrisos de soslaio para ti. Então eu sigo. E tu segues-me. Nada é dito enquanto caminhamos longe uma da outra. A passada é rápida, e de repente ainda mais depressa. Entro! Primeira porta de prédio destrancada.. vão de escadas. Tu apresentas-te, segundos depois, à minha frente. Reparo no teu cabelo fora do lugar. Desalinhado. Adoras a perseguição. Tal qual a minha pessoa, alimentas-te dela. Encosto-me à parede de mármore fria, mãos atrás das costas. Os meus olhos jogam fogo na tua direcção. Sentes-me a chamar-te e vens. Sem palavras. Sem gestos. Num segundo estas junta a mim. Agrafas-me. Deixas-me sem espaço para fugir. 'Delicias-me' penso. Devoras o meu pescoço e eu já parti. Não. Não posso! Puxo-te o cabelo na parte de trás da nuca e observo-te. Sobrancelha levantada e olhar cheio de tesão. "O que é que pensas que estas a fazer?", pergunto-te. Não aguentamos e desmanchamo-nos a rir. As duas. Segue-se um beijo longo, cheio de faltas de ar, e uma tarde fresca de primavera.

20110329

44

'A vida é apenas uma inabalável repetição de dias, até ao momento que te vejo. A prolongação que me leva, plo arrastar das horas, dos minutos e dos segundos, sossega-me. A certeza cresce e ganha balanço. És tu e nada mais. E como poderia não ser assim?' Penso e sorrio. Fico feliz por te ter vivido.

20110324

43

Antes de me dizeres o que quer que seja, deixa-me que te diga que não quero ouvir o que tens a dizer. Não. Nem sequer quero saber que tens a particularidade de articular palavras em frases. Não quero saber de ti. Ou do som da tua voz. Não quero saber como estás ou como foi o teu dia. Alias, perfeito perfeito seria que me fosses totalmente indiferente. Ou melhor, que no final de contas não existissem aquelas coisas que complicam tudo, como as palavras, os sentimentos e essas tretas. Assim, não o é. E quem inventou o mundo e as pessoas, deixou da parte de fora da balança estes pequenos detalhes, que são tão pesados. Então não fales. Limita-te! Deixa as coisas serem simples e básicas. Como se quer, afinal! Cala-te e despe-te..

20110322

42

Começou hoje a Primavera, coincidindo com o meu único dia de meia-folga. Fui dar uma volta. De carro é sempre tudo mais bonito de vidro aberto. A mão vai de fora, ao vento. Debaixo do sol, ainda suave, do meio dia. Atravesso a Nacional de estrada estreita. Predominam os amarelos, os laranjas, os verdes a perder de vista. Árvores, flores, ribeiras. Cheira a verde, a começo, a chance de algo mais! Cheira-me!! E ainda vamos apenas no primeiro dia desta Estação. Cheira-me que sejas tu quem fores ou o que fores, estás mais perto do que imagino. É esta a sensação que tenho sempre que começa a Primavera. A lufada de ar fresco que me vem garantir que o Inverno finalmente terminou. Seguem-se muitas travessias de Nacional, quem sabe se estarás comigo. A meu lado? Ou talvez apenas no meu pensamento. Quem sabe se estarei simplesmente só, mas feliz por mim mesma, no contentamento de saber que me chego. Quem sabe se não chegas um dia e me contradizes acerca de tudo o que acabei de dizer. E me dizes que o vermelho não é a cor 'vermelho', mas azul turquesa; E me dizes que aquilo no céu não são nuvens, mas novelos de algodão doce, para adocicar o paladar das nossas vidas...

20110321

41

Ao contornar a esquina, apercebi-me de ti. Não julguei que te veria hoje. Mas ali estavas tu. Suada. De cara vermelha, transpiravas do calor la de fora. Tinhas vindo, não a correr, mas a acelerar o passo. Tudo estava tão à flor da pele quando passei por trás de ti que quase pude sentir o pulsar do teu sangue. Frente ao espelho, passavas com um lenço de papel para limpar as gotas de agua, com as quais te refrescaste. Pelo rosto, pelo pescoço e logo de seguida pelo peito, escorregando por entre os seios. Tens um apelo selecto. Para mim uma iguaria. É um prazer conviver com uma desigualdade assim. Saio, mais tarde. A noite está quente, morna. A Lua cheira, dourada. A minha vontade é convidar-te a dar uma volta de carro. Ver tudo. Ver a Lua, as luzes e o fumo. Os reflexos das margens do Tejo. Tomar o controlo, como se o pudesse ditar, e atribuir-te a vontade de estares na minha companhia.

20110320

40

Tenho um amigo. Quase um pai. Alguém que soube ver ao inicio o que tantas falharam em aperceberem-se com os anos. "Não é tu que sejas velha" - disse ele - "que não és. Obviamente. Tu és uma miúda, olha bem para ti! Mas o teu olhar, Patricia, é o de uma pessoa que já viveu. Já sofreu, já amou, já perdeu, já chorou.. Percebes??" Sim. Luís, eu entendo. Alias, é com quase choque que finalmente encontro em ti a visão completa, desperdiçada por outras, do que sou. Nada mais e nada menos do que humana. Quisera eu encontrar alguém que soubesse, não só -lo mas também, admiti-lo nela mesma. Manejá-lo, ao fim ao cabo. Saber o que fazer com ele! Um acto de humanidade.

20110318

39

Eu e a tua pessoa. Vivemos realidades alternativas. Universos paralelos de vidas. Hoje sonhei isso mesmo, como se o espaço nos permitisse a convivência desconhecida. Eras tu, por um lado, no mesmo exacto sitio que eu estava, à mesma hora, no teu mundo. E eu, no mesmo espaço que tu, do mesmo dia, da mesma hora, no meu. Desempenhávamos tarefas simples, nós. Cada uma na sua realidade. Éramos, tal como somos, pessoas confiáveis. Fieis aos seus ideais. Com certezas e convicções. Vivemos em pleno, a sensação de sermos correctas. O rush do momento, no sonho desenrolado, corria sem muitos percalços. Subitamente parei e pareceu-me ver-te. Eras tu! Não. Uma impressão minha. Qualquer coisa na vista. Senti-te. Por um momento sube que ali estavas, comigo. E todo o meu redor parou. A minha realidade deixou de fazer sentido e quis partir para a tua. Senti então, num pestanejar, todo o amargo desse impossível. Foi como se fossemos eu a Lua e tu o Sol, nunca destinados à convivência. Cientes. Dolorosamente despertas. Acordo eu denovo para a minha realidade sem promessas. Foi um sonho bonito. Até romântico. Não podia estar mais longe da realidade. Agora que nem sei se fomos mesmo Astros, talvez não passemos puramente de buracos negros.

20110315

38

Me acuesto e me levanto pensando en ti. ¿Por qué? No encuentro la respuesta digna a una actitud mejor. Acorralada entre el mar de la tristeza y la luz de mis ojos, quitada, te dedico una canción de amor desesperada.

Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.

A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
¿Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
¡Ah, déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.

De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia.

Pasan huyendo los pájaros.
El viento. El viento.
Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres.
El temporal arremolina hojas oscuras
y suelta todas los barcas que anoche amarraron al cielo.

Tú estas aquí. ¡Ah!, tú no huyes.
Tú me responderás hasta el último grito.
Ovíllate a mi lado como si tuvieras miedo.
Sin embargo algunavez corrió una sombra extraña por tus ojos.

Ahora, ahora también, pequeña, me traes madreselvas.
y tienes hasta los senos perfumados.
Mientras el viento triste galopa matando mariposas
yo te amo, y mi alegría muerde tu boca de ciruela.

Cuanto te habrá dolido acostumbrarte a mí,
a mi alma sola y salvaje, a mi nombre que todos ahuyentan.
Hemos, visto arder tantas veces el lucero besándonos los ojos
y sobre nuestras cabezas destorcerse los crepúsculos en abanicos gigantes.

Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueño del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.
Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.
(Pablo Neruda)

Podriamos haber cantado millones de versos... ya lo sabes..

20110310

37

Hoje dei por mim a acordar na terra-mãe, como não fazia à meses. O meu corpo estranhou o colchão, frio do desuso. Foi então, numa passada vagarosa e lenta, que me dirigi ao destino tenebroso do cheio a eter e das agulhas. Dos tremometro. Do odor a velho e usado. Torniquetes e tosse, multiplicados. Recantos sombrios que não gosto de observar. Quatro longas, as horas, da mistura quase mortal de doenças e burocracia. Sai ainda antes de almoço. O sol batia continencia aos meus olhos, lá do alto. Sai a pé do hospital para um bairro ali mesmo ao lado onde o estacionamento é facil e acessivel. Ao caminhar, por entre as ruas não-calcetadas, tive a estranha sensação de já ali ter estado. Foi então que recordei. Foi à cerca de vinte anos que passava na mesma rua. O cheiro era identico. Malmequeres e Azedas por entre os pequenos arbustos, rodeavam as casas improvisadas de quem não têm mais do que um tecto falso para dormir. Por entre as poucas barracas, com os pés na areia seca lembrei-me de ti. Seguravas a minha mão. Passavamos varias vezes por ali sempre que iamos aos recados para o almoço ou para o jantar. Nunca me deixavas perder e falavas muito comigo. Adorava que falasses comigo. Talvez por isso, desde que te foste seja tão dificil para mim partilhar palavras a vulso. E são tão importantes, as palavras. Lembras-te? Até no nosso silencio nos entendiamos perfeitamente. As palavras recitavam-se em gestos e olhares que me marcarão sempre. Como o sangue é forte. Como pulsa. Como nos encontra nesta era digital de crenças desmistificadas. Foste tu que me ensinaste tudo o que uma jovem podia aprender. Hoje lembrei-me de ti. Mais que uma mãe, com a tua partida perdi todo o alicerce e nasci denovo, mais fria e menos faladora. Entendes agora porque sou assim?

20110307

36

Voltaste a pegar-me na mão, nem sei bem como. Talvez sejam os teus olhos de olhar perfeito. A forma como me vês. Como me projectas. E ao mesmo tempo não me prendes. Não me queres só para ti. Cativa, não! Queres apenas um momento comigo. Levas-me a fazer sempre algo diferente, com pessoas diferentes. Gosto de me sentir normal ao pé de ti, sem ter demasiadas expectativas, sem haver demasiada exigência. Sou eu ao pé de ti, com todo o bom ou todo o mau que tiver de vir. Apercebi-me disso e aceitei o teu presente, com o qual sei lidar. Nos teus lençóis de flanela me lavaste em conforto. Um exorcismo do passo falhado. Extravasei a minha dor. E tu a tua. Começa a ser um habito que os infortúnios da vida sirvam para nos unir, quando já rara é a coisa que corre como queremos. uma certa tristeza implícita nos nossos encontros, como se não pudéssemos repeti-los consecutivamente, como se nos levassem a uma espiral de auto-destruição. Eu sei. Não é saudável. Eu não sou saudável. E enquanto não sentir que estou a construir algo serei sempre um pedaço incompleto de qualquer coisa.

20110306

35

Fúria. Há uma calma silenciosa à superfície. Como nos dias de trovoada, antes mesmo de começar a chover. Permanece a atmosfera abafada. Eriçam-se os pelos na parte de trás da nuca. Calafrio. É a sensação que tenho neste meio termo de não me lembrar de nada, pois a lembrança é inimiga da perfeição. Puxa-me para baixo. Para onde o eco é assustadoramente real, alto. Imenso. A presença das pessoas trás, por tabela, a desvantagem de me preencherem espaços dos quais já não me lembrava. A essas lacunas de ar, dantes hermeticamente fechadas, acresce agora a responsabilidade de as sentir, de ter de me importar com elas. Com essas diferenças vivo o acordar para a realidade da qual queria fugir. Da responsabilidade para comigo mesma. 'Ódio' é uma palavra forte, mas mexeu comigo o espaço para o qual chamaste a atenção. Apontaste-o e agora não consigo mais tirar o olhar apático dele e do que não tenho. 'Odeio-te' é uma expressão forte mas não sei que dizer senão isso mesmo. Mexeste comigo e a fúria é tudo o que me alimenta.

20110305

34

Estou de saida. Para fora do sitio que foste tu e a tua breve historia de encantar. Desligo as luzes com pesar e um ultimo suspiro do que pensei que fosses. Tambem eu me sei enganar às vezes acreditanto demais nas verdades de pessoas que desconheço. A porta fecha-se. Ao mesmo tempo todas as outras se fecharam. Do carro, da casa, do caminho que tinha traçado para entrares na minha vida. Nunca me envergonhei da minha maneira de me entregar. Envergonho-me porém da minha falta de discernimento. Gostava de conseguir acreditar que foste apenas mais uma ilusão traduzida em matéria palpavel. Um holograma do bonito de tudo o que podia ser. Não foi. Caí em mim, a tempo de me levantar. Doí-me o corpo e não só. Vou dar um mergulho para me refrescar e esperar que a agua leve tudo aquilo com que não quero lidar.

33

Acho inclusivé que seria explendido todo o teu corpo nu contra o meu. Na meia luz da minha sala se daria a simbiose de nós as duas. Livres de inibições, de problemas, seriamos donas do querer e da luxuria enfim protagonizada. Sei-te na minha vida. Eu na tua estarei. Aguardo, na calma com calafrios, o tempo de nós as duas. Loucas e soltas num momento irrepreensivel e memoravel. E apenas isso. Momento.

20110304

32

Dançámos um tango. La Revancha del tango. Nenhuma de nós, fui levada a crer, sabia dança-lo. E eu fui e tentei. Os primeiros passos pareciam-me dificeis. Flectia as pernas, arquiava as costas e nada. Não havia pé de dançarina em mim e eu começava a stressar. Decidi largar tudo e escutar a musica. Senti-te perto. A minha boca começou a ficar avermelhada e eu salivava por ti. Puxei-te mais perto. De dentro do teu ventre senti as passadas da musica como nunca tinha ainda experienciado. Daí dançamos uma noite inteira até cairmos no chão. Exaustas. Suadas. Arfavamos avidamente o oxigenio. Eu sorria extaziada para mim mesma. Quando me voltei para ti estavas a levantar-te do chão. Olhei para ti em sinal de interrogação e tu respondeste em palavras "Afinal não sabias mesmo dançar". Abotoaste a camisa preta e caminhaste para a porta. Eu olhava para ti, ainda no chão, incredula. Sem reacção. Tu abriste a porta e passas-te por ela sem sequer olhar para tras. Para mim, daquele chão até aquela porta foram quilometros cada segundo interminável em que te afastavas mais e mais de mim. Preferiste não me olhar misericordiosamente. Saiste simplesmente. Como quem sai para comprar tabaco. Sei hoje o porquê de tanto ter evitado o teu contacto. Hoje foi o dia em que me deste a razão.

20110303

31

Saio da porta para fora. Corro até ao caminho de pedra. Ha tanta humidade no ar que parece que me encho de agua por dentro. O sol, no ceu com algumas nuvens, vem brindar-me com a sua cor amerelo-mel de inicio de manhã. Sabe bem sentir o sol depois de tanta chuva. Já estava tão cansada da chuva e do frio que dela vinha que hoje, ao acordar, temi que fosse somente uma copia de outro dia qualquer. Chego ao carro com a estranheza de me estar a esquecer de algo. Não esqueci, na verdade. Arranco para a estrada, sabendo perfeitamente o que deixo em casa e em como isso está bem guardado. Um recheio.

20110302

30

É fumo que sai. Respiro. Dou mais um trago. Volto a tragar. Oiço o som descontinuado - como descompasso tambem - e descontraido da Beth Gibbons, sempre presente. Nunca ninguem me disse o que a verdade devia ser, mas disseram-me uma coisa "tem cuidado com os novelos, quando damos por nós nem nos mexemos, de tão enleados que estamos". A culpa é minha, eu sei, por me continuar a mexer e a envolver cada vez mais nele. Fazem-me sentido todos os sons agrestes, cada passagem. A nossa abertura é sempre maior para a vida conforme passa o tempo, e a minha é enorme. Vejo, com clareza, a minha inegavel maneira de absorver momentos e pessoas. Sorrio. Não, não podes decidir por mim. A porta esta fechada e tu não tens chave. Parabenizo quem se opõe à minha identidade, quem de mim difere, pois parece resultar tão bem não ter uma espinha dorsal. As coisas tendem a ser mais faceis assim.. Isto nunca foi a luta dos mais fortes, quando eu não sou bicho, mas sim a paisagem. E a estação já está a mudar.

20110222

29

Ha um vicio implicito na arte de te beijar. Como se mais nada importasse. Como se, a pouco e pouco, cada coisa e cada som fossem desaparecendo gradualmente. Estamos a sós. Acolhes-me em ti e para ti. Eu sigo o fluxo natural e deixo-me levar. Vicias-me. Não me debato, entrego-me à carnificina! O teu olhar revela ganas de mais um beijo. Sedutor, rouba-mo. Não tenho armas. O teu sorriso leva o resto. Tudo o que posso fazer é ficar aqui, nos teus braços. Fechas os olhos de cansaço e aprecias o momento. Eu solto um rir, meio rouco, e deixo-me aterrar.

20110219

28

Ouve o meu silencio. Deixa que ele te fale de quem sou. De entre um gesto nascem outros e de mim para ti a distancia medida é pouca. Toco-te no cabelo com a desculpa de o afastar da tua vista. Coloco-o atrás da orelha. Estamos perto. Muito perto. Pego na tua cara com as duas mãos agora. Puxo-te para mim. Beijo-te uma vez. Outra ainda. E mais outra. Tu sorriste para mim, sem receio, e eu fiquei contente por te devolver o que me oferecias. Senti-me a transbordar, sem vontade de ir embora. Dei-te mais um beijo e voltei costas para abrir a porta da rua. Prometi voltar a ver-te em breve e sai. Quebrei essa promessa ao pensar em ti.

20110217

27

Tudo começa numa nuvem. Conforme o olho do espectador se vai focando nesse aglomerado de vapores, pontos cinzentos de fumo, poeira, depressa descobre que não se trata de uma nuvem mas sim de um conjunto visível de partículas de água. Micro gotas de agua, todas juntas, na parte de dentro de um automovel. Temos os vidros embaciados. A tela cresce e ali estamos nós duas dentro do teu carro. Rimo-nos da desgraça alheia, dos condutores que passam la fora, mesmo em frente a nós. E eu estou presa num momento contigo. Presa num momento contigo à exactamente vinte e quatro horas atrás. Toda tu eras a personificação da Razão desfeita em prazer. Saiu-nos o tiro pela colatra e agora não pretendemos voltar ao ponto de controlo da situação. Daixamos fluir. Vai por entre as nossas mão, passa plas nossas pernas, corre o nosso corpo todo num arrepio. É a Quimica. Maiscula. Grande. Imensa. Estamos cobertas, enquanto enroladas, numa empatia. Um deleite num arquear de costas. Foges de mim sem efeito. Persigo-te, numa prova de esforço. Alcanso o teu pescoço. Pedes-me para parar enquanto conseguimos. Não consigo. Tu tambem não. Deixa, não faz mal. Senta-te então aqui comigo. Vem ser espectadora do que está para vir.

20110210

26

São conversas, livres de hipocrisias e arrependimentos. Em paisagens confortaveis de bares com guitarras de cordas cruas, o barulho das bolas de bilhar e nuvens de tabaco. É esta a imagem que ambiciono enquanto a realidade me atormenta. À minha frente repousam duas chavenas de cafe, comodamente enquadradas na passagem de dia em que estamos. A musica soa-me um pouco curriqueira, o barulho envolvente implica o arrastar de uma cadeira proxima. Não fumo, falta a oportunidade e o calor do exterior. Somos apenas passageiras da viagem a que nos habilitamos. O tempo corre. Com a rapidez de uma brisa desigual retornamos ao ponto de partida. Acabou e eu sigo. Mas poderei voltar quando quiseres..

20110207

25

Quando te vi, não havia lua no ceu. Encontrei-te num acaso. Numa sombra nos esbarrámos. Fiquei a sentir-me meio que culpada por não ter reparado, não me ter sequer apercebido da tua existencia, não fosse a nossa colisão. "Desculpa" balbuciei insegura. Tu sorriste. Toda tu eras brilho e cor, de olhos grandes e negros. De perto pude sentir o teu cheiro. Estranho e diferente. Um tipo de fragrancia exotica vinda duma terra onde nunca estive. "Gosto do seu sorriso". Esbocei uma gargalhada torta. Somos caça e presa a inverter papeis. Pus a minha mão na tua. Eras quente. Pequena. Fragil. Davas carne e osso à beleza triste que ostentavas. Como se o maravilhoso de viver tivesse sido tatuado nas tuas costas. Compreendi a tua dor e partilhei a minha contigo. Por momentos foi como se nem sequer existisse alguma. Esteve tudo dramaticamente perfeito durante o micro-segundo em que te entendi.

20110205

24

Hoje vi-te menos bem. E de entre tantas palavras que trocámos, o que falou mais alto foi o teu olhar triste. Sim. Aquele olhar de quem está farto, de quem já esta por tudo para não se chatear. Não devia de ser assim. Não tu. És quase Dona da minha alegria de viver. Amiga, és a unica que me puxa para cima. Protagonisas com classe o papel de Heroina das minhas alegrias terrenas. Se tivesse no meu poder a causa da tua tristeza, certamente viverias feliz para sempre..

20110204

23

O meu nome do meio havia de ser Modestia. Só assim saberiam que a minha vida anda à nora Karmica. Deambulando entre o Yin e o Yang. Não é o desgoverno que toma conta dela. Não. Apenas uma certeza que tudo está bem, porque na verdade poderia estar tudo terrivelmente pior. Sorrio. Gosto de juntar peças que nada têm a ver umas com as outras. Tambem eu sou uma peça sem par. Afinal de contas, cresço em mim sabendo que o mundo se uniu para me tramar. Confiança a todo-o-vapor. Arregaço as mangas. Sorriso malando. "Eles que venham!"

20110201

22

Mãos ao alto. Jogo tudo para cima e vou! Não sei se é energia. Sinergia talvez? É calor que corre. Vontade de fazer. Acontecer! Nada mais importante que o Hoje. O inacreditavel Agora, tempo destemido em sede e em garra. Somos senhores de nós mesmos e o Futuro já o vemos na linha de chegada. São metas. E és tu mesma com a vontade de acreditar em ti. Finalmente!

20110131

21

Sim, lembro-me do que fizemos. E como o poderia esqueçer? Fomos loucas. Tu e eu. Assumimos o exilio. Voltámo-nos uma para a outra. Frente-a-frente. Somos tudo o que nos resta. Olhei para os teus olhos, de olhar perfeito, e dei azo à intenção de te tirar para fora de ti mesma. Riste-te. Antecipas o acto. Eu espero e tu desesperas timidamente. Encontro-me em ti, por fim, centro de energia. Choras por um fim ao desequilibrio. Choro contigo. Jogamos, como quem não quer, a ver quem ganha. Vencemos as duas, todas as adversidades passadas. Rimo-nos de todos os outros. Tu abraças-me. Eu aconchego-me. É neste quadro de peles nuas, musculos duridos e gritos mudos que encontramos, a tinta fresca, um novo olhar sobre o mundo. E agora? Tenho saudades dos teus olhos de olhar perfeito..

20110129

20

Tudo fica mais bonito quando estas perto. O mundo é diferente. Prespectiva audaz. Compreendo o peso que tens na minha vida e sorrio ao segredo que trago dentro de mim. És o fogo esquecido, quase apagado. Nunca reparamos nos alicerces, pois não? Sinto-te a aproximar. Riu-me da mentira criada por mim mesma. Engano ninguem. És a Deusa do Amor, como na musica, triste balanço. Bossa nova de passada agridoce. Já não somos delirio mas o meu corpo ainda sente. Vamos apenas escutar. Deixa o mundo para tras. Recosta-te. E relaxa.

20110126

19

Rasgamos páginas novas em cenários antigos. Voltei a passear por ruas do passado, mas tu estavas lá, e eu as não estranhei. São olhares hipnotizantes. Fazes-me rir. Será que sabes? O teu olhar detem nada mais do que a perfeição no seu formato. Perfeitos os teus olhos. Perfeito o teu olhar. Sou cativa dessa atenção. Rapto-te para mim e trago-te para o meu intimo. Intensifica-se o olha e perdes-te tu no meu. Entramos em sintonia. Canto-te pla noite fora. Tu deixas-te levar. Não somos de ninguem. Perfeito.

20110121

18

O poder da espontaniedade perde-se com o desejo pela monotonia. Então, como te posso continuar a querer, se toda a acção desempenhada pela tua pessoa me leva a crer que me queres enclausurar? Nasci animal. Fera. Tigre. Até onde vai a ousadia dos humanos, então? Queres por-me em cativeiro, mas de longe topei a tua fisgada. Miro-te à mais tempo. Sou mais astuta. A calma gelida à tona. Faço o jogo do dó-li-tá para te fazer ver que não vale a pena tentares mudar um bixo. Por mais domesticada que penses que estou..

20110117

17

Às vezes sinto o teu cheiro e deixo que me transporte para junto de ti. És louca e não sabes o que queres. Passeias gatos na rua, domando-os. Sempre tiveste essa profundidade, a diferença imperial que te distuingue das demais. És louca, repito, por não saberes que ficares só é apenas o oitavo pecado mortal.

16

"Vamos!" - decido agora, chamando-te. Pegas-me na mão. Estranho a sensação a principio. Dá-me aquele enjoo, o aperto na garganta. Vens então comigo. Sei que tambem a ti te parece esquesito pois somos dois gatos escaldados. Caminhamos por entre o medo, sem pressas. Tu dás a tua passada e eu atraso-a. Ainda podia voltar. Correr. Derrapar! Mas em vez disso sigo em frente, contigo..

20110114

15

Larga-me a mão, não me puxes! Deixa-me estar aqui nesta poltrona improvisada. Nela me sento só pois não ha lugar, nem espaço, para mais ninguem. É um sitio confortavel. Este revestimento acolchoado tende a relaxar os musculos e as ideias. Não me puxes. Não quero sair daqui! Se me puxas, porque me queres, ao menos arranja um sitio onde possamos estar ambas sentadas.

20110112

14

Passei o dia sem te contar como a tua normalidade me apazigua. És terna, quase quente. Esboço um sorriso quando tenho noticias tuas. Tu não sabes. É esse olhar meigo, com a conversa do engate que trazes no bico, sempre pronta a desferir um golpe à muito antecipado. Soubesses tu tudo aquilo que não te conto.. destruiriamos lares.

20110111

13

Sempre, enquanto te tive, me pareceu estar na crista da onda. Vertice desafiante de um querer maior que a minha propria vontade, e em muito superior à minha auto-estima. Do topo da onda olhava receosa para baixo. A espuma, infinitamente mais abaixo, fazia-me tremer de medo e a antecipação da queda agoniava-me. Não me posso é esqueçer que de lá de cima, por muito pior que fosse a queda, senti o vento na cara e o sol meigo que aloirava a pele. Ao mesmo tempo reconfortante, dizias que tudo ia correr bem. Fechei os olhos e surfei a crista da onda como ninguem. Mais tarde cai..

20110108

12

No momento em que fomos duas iguais eu não o esperava. Enconntrá-mo-nos, perdidas que estávamos, no meio da angustia de outras historias não relacionaveis. Mirei-te de soslaio e achei-te tão triste quanto eu, tão cansada como eu.. Foste inesperada, dentro de toda a previsibilidade do momento e eu não me fiz rogada. Aceitei-te em mim, como tu mesma o fizeste. Deslocadas do mundo, achámos conforto no exilio..

20110105

11

Como o decimo primeiro deve fazer a diferença iniciemos uma explicação do que se fala aqui. Falam-se de batimentos alvoraçados, que se atropelam. Do que se sente mascarado com palavras diferentes, porque na verdade nunca ninguem gostou de coisas faceis. Sopram-se verdade em direcção a lado nenhum. Fala-se de todos os pedaços roubados e de todos os que entreguei. Fala-se de preenchimento e estrutura. De alma e de corpo. Fala-se de tudo o que todas deixaram de perceber e do que eu já não tenho pachorra para explicar... Falo de quem quero e de quem não quero, só porque posso. A todos os meus incompreensiveis amores um muito obrigado lol

20110104

10

Pintei com uma cor que não conhecia e agora não encontro forma nem feitio para a definir. Abstracta. Foge plo meio das não-definições, das não-conclusões. Entendo o sentido a dar à frase mas não as palavras para a descrever. Estanco. Como enfrentar o indefinido? Desafiando-te!