Hoje dei por mim a acordar na terra-mãe, como não fazia à meses. O meu corpo estranhou o colchão, frio do desuso. Foi então, numa passada vagarosa e lenta, que me dirigi ao destino tenebroso do cheio a eter e das agulhas. Dos tremometro. Do odor a velho e usado. Torniquetes e tosse, multiplicados. Recantos sombrios que não gosto de observar. Quatro longas, as horas, da mistura quase mortal de doenças e burocracia. Sai ainda antes de almoço. O sol batia continencia aos meus olhos, lá do alto. Sai a pé do hospital para um bairro ali mesmo ao lado onde o estacionamento é facil e acessivel. Ao caminhar, por entre as ruas não-calcetadas, tive a estranha sensação de já ali ter estado. Foi então que recordei. Foi à cerca de vinte anos que passava na mesma rua. O cheiro era identico. Malmequeres e Azedas por entre os pequenos arbustos, rodeavam as casas improvisadas de quem não têm mais do que um tecto falso para dormir. Por entre as poucas barracas, com os pés na areia seca lembrei-me de ti. Seguravas a minha mão. Passavamos varias vezes por ali sempre que iamos aos recados para o almoço ou para o jantar. Nunca me deixavas perder e falavas muito comigo. Adorava que falasses comigo. Talvez por isso, desde que te foste seja tão dificil para mim partilhar palavras a vulso. E são tão importantes, as palavras. Lembras-te? Até no nosso silencio nos entendiamos perfeitamente. As palavras recitavam-se em gestos e olhares que me marcarão sempre. Como o sangue é forte. Como pulsa. Como nos encontra nesta era digital de crenças desmistificadas. Foste tu que me ensinaste tudo o que uma jovem podia aprender. Hoje lembrei-me de ti. Mais que uma mãe, com a tua partida perdi todo o alicerce e nasci denovo, mais fria e menos faladora. Entendes agora porque sou assim?
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