20110329
44
'A vida é apenas uma inabalável repetição de dias, até ao momento que te vejo. A prolongação que me leva, plo arrastar das horas, dos minutos e dos segundos, sossega-me. A certeza cresce e ganha balanço. És tu e nada mais. E como poderia não ser assim?' Penso e sorrio. Fico feliz por te ter vivido.
20110324
43
Antes de me dizeres o que quer que seja, deixa-me que te diga que não quero ouvir o que tens a dizer. Não. Nem sequer quero saber que tens a particularidade de articular palavras em frases. Não quero saber de ti. Ou do som da tua voz. Não quero saber como estás ou como foi o teu dia. Alias, perfeito perfeito seria que me fosses totalmente indiferente. Ou melhor, que no final de contas não existissem aquelas coisas que complicam tudo, como as palavras, os sentimentos e essas tretas. Assim, não o é. E quem inventou o mundo e as pessoas, deixou da parte de fora da balança estes pequenos detalhes, que são tão pesados. Então não fales. Limita-te! Deixa as coisas serem simples e básicas. Como se quer, afinal! Cala-te e despe-te..
20110322
42
Começou hoje a Primavera, coincidindo com o meu único dia de meia-folga. Fui dar uma volta. De carro é sempre tudo mais bonito de vidro aberto. A mão vai de fora, ao vento. Debaixo do sol, ainda suave, do meio dia. Atravesso a Nacional de estrada estreita. Predominam os amarelos, os laranjas, os verdes a perder de vista. Árvores, flores, ribeiras. Cheira a verde, a começo, a chance de algo mais! Cheira-me!! E ainda vamos apenas no primeiro dia desta Estação. Cheira-me que sejas tu quem fores ou o que fores, estás mais perto do que imagino. É esta a sensação que tenho sempre que começa a Primavera. A lufada de ar fresco que me vem garantir que o Inverno finalmente terminou. Seguem-se muitas travessias de Nacional, quem sabe se estarás comigo. A meu lado? Ou talvez apenas no meu pensamento. Quem sabe se estarei simplesmente só, mas feliz por mim mesma, no contentamento de saber que me chego. Quem sabe se não chegas um dia e me contradizes acerca de tudo o que acabei de dizer. E me dizes que o vermelho não é a cor 'vermelho', mas azul turquesa; E me dizes que aquilo no céu não são nuvens, mas novelos de algodão doce, para adocicar o paladar das nossas vidas...
20110321
41
Ao contornar a esquina, apercebi-me de ti. Não julguei que te veria hoje. Mas ali estavas tu. Suada. De cara vermelha, transpiravas do calor la de fora. Tinhas vindo, não a correr, mas a acelerar o passo. Tudo estava tão à flor da pele quando passei por trás de ti que quase pude sentir o pulsar do teu sangue. Frente ao espelho, passavas com um lenço de papel para limpar as gotas de agua, com as quais te refrescaste. Pelo rosto, pelo pescoço e logo de seguida pelo peito, escorregando por entre os seios. Tens um apelo selecto. Para mim uma iguaria. É um prazer conviver com uma desigualdade assim. Saio, mais tarde. A noite está quente, morna. A Lua cheira, dourada. A minha vontade é convidar-te a dar uma volta de carro. Ver tudo. Ver a Lua, as luzes e o fumo. Os reflexos das margens do Tejo. Tomar o controlo, como se o pudesse ditar, e atribuir-te a vontade de estares na minha companhia.
20110320
40
Tenho um amigo. Quase um pai. Alguém que soube ver ao inicio o que tantas falharam em aperceberem-se com os anos. "Não é tu que sejas velha" - disse ele - "que não és. Obviamente. Tu és uma miúda, olha bem para ti! Mas o teu olhar, Patricia, é o de uma pessoa que já viveu. Já sofreu, já amou, já perdeu, já chorou.. Percebes??" Sim. Luís, eu entendo. Alias, é com quase choque que finalmente encontro em ti a visão completa, desperdiçada por outras, do que sou. Nada mais e nada menos do que humana. Quisera eu encontrar alguém que soubesse, não só vê-lo mas também, admiti-lo nela mesma. Manejá-lo, ao fim ao cabo. Saber o que fazer com ele! Um acto de humanidade.
20110318
39
Eu e a tua pessoa. Vivemos realidades alternativas. Universos paralelos de vidas. Hoje sonhei isso mesmo, como se o espaço nos permitisse a convivência desconhecida. Eras tu, por um lado, no mesmo exacto sitio que eu estava, à mesma hora, no teu mundo. E eu, no mesmo espaço que tu, do mesmo dia, da mesma hora, no meu. Desempenhávamos tarefas simples, nós. Cada uma na sua realidade. Éramos, tal como somos, pessoas confiáveis. Fieis aos seus ideais. Com certezas e convicções. Vivemos em pleno, a sensação de sermos correctas. O rush do momento, no sonho desenrolado, corria sem muitos percalços. Subitamente parei e pareceu-me ver-te. Eras tu! Não. Uma impressão minha. Qualquer coisa na vista. Senti-te. Por um momento sube que ali estavas, comigo. E todo o meu redor parou. A minha realidade deixou de fazer sentido e quis partir para a tua. Senti então, num pestanejar, todo o amargo desse impossível. Foi como se fossemos eu a Lua e tu o Sol, nunca destinados à convivência. Cientes. Dolorosamente despertas. Acordo eu denovo para a minha realidade sem promessas. Foi um sonho bonito. Até romântico. Não podia estar mais longe da realidade. Agora que nem sei se fomos mesmo Astros, talvez não passemos puramente de buracos negros.
20110315
38
Me acuesto e me levanto pensando en ti. ¿Por qué? No encuentro la respuesta digna a una actitud mejor. Acorralada entre el mar de la tristeza y la luz de mis ojos, quitada, te dedico una canción de amor desesperada.
Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.
A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
¿Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
¡Ah, déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.
De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia.
Pasan huyendo los pájaros.
El viento. El viento.
Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres.
El temporal arremolina hojas oscuras
y suelta todas los barcas que anoche amarraron al cielo.
Tú estas aquí. ¡Ah!, tú no huyes.
Tú me responderás hasta el último grito.
Ovíllate a mi lado como si tuvieras miedo.
Sin embargo algunavez corrió una sombra extraña por tus ojos.
Ahora, ahora también, pequeña, me traes madreselvas.
y tienes hasta los senos perfumados.
Mientras el viento triste galopa matando mariposas
yo te amo, y mi alegría muerde tu boca de ciruela.
Cuanto te habrá dolido acostumbrarte a mí,
a mi alma sola y salvaje, a mi nombre que todos ahuyentan.
Hemos, visto arder tantas veces el lucero besándonos los ojos
y sobre nuestras cabezas destorcerse los crepúsculos en abanicos gigantes.
Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueño del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.
Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.
(Pablo Neruda)
Podriamos haber cantado millones de versos... ya lo sabes..
Juegas todos los días con la luz del universo.
Sutil visitadora, llegas en la flor y en el agua.
Eres más que esta blanca cabecita que aprieto
como un racimo entre mis manos cada día.
A nadie te pareces desde que yo te amo.
Déjame tenderte entre guirnaldas amarillas.
¿Quién escribe tu nombre con letras de humo entre las estrellas del sur?
¡Ah, déjame recordarte cómo eras entonces, cuando aún no existías.
De pronto el viento aúlla y golpea mi ventana cerrada.
El cielo es una red cuajada de peces sombríos.
Aquí vienen a dar todos los vientos, todos.
Se desviste la lluvia.
Pasan huyendo los pájaros.
El viento. El viento.
Yo sólo puedo luchar contra la fuerza de los hombres.
El temporal arremolina hojas oscuras
y suelta todas los barcas que anoche amarraron al cielo.
Tú estas aquí. ¡Ah!, tú no huyes.
Tú me responderás hasta el último grito.
Ovíllate a mi lado como si tuvieras miedo.
Sin embargo algunavez corrió una sombra extraña por tus ojos.
Ahora, ahora también, pequeña, me traes madreselvas.
y tienes hasta los senos perfumados.
Mientras el viento triste galopa matando mariposas
yo te amo, y mi alegría muerde tu boca de ciruela.
Cuanto te habrá dolido acostumbrarte a mí,
a mi alma sola y salvaje, a mi nombre que todos ahuyentan.
Hemos, visto arder tantas veces el lucero besándonos los ojos
y sobre nuestras cabezas destorcerse los crepúsculos en abanicos gigantes.
Mis palabras llovieron sobre ti acariciándote.
Amé desde hace tiempo tu cuerpo de nácar soleado.
Hasta te creo dueño del universo.
Te traeré de las montañas flores alegres, copihues,
avellanas oscuras, y cestas silvestres de besos.
Quiero hacer contigo
lo que la primavera hace con los cerezos.
(Pablo Neruda)
Podriamos haber cantado millones de versos... ya lo sabes..
20110310
37
Hoje dei por mim a acordar na terra-mãe, como não fazia à meses. O meu corpo estranhou o colchão, frio do desuso. Foi então, numa passada vagarosa e lenta, que me dirigi ao destino tenebroso do cheio a eter e das agulhas. Dos tremometro. Do odor a velho e usado. Torniquetes e tosse, multiplicados. Recantos sombrios que não gosto de observar. Quatro longas, as horas, da mistura quase mortal de doenças e burocracia. Sai ainda antes de almoço. O sol batia continencia aos meus olhos, lá do alto. Sai a pé do hospital para um bairro ali mesmo ao lado onde o estacionamento é facil e acessivel. Ao caminhar, por entre as ruas não-calcetadas, tive a estranha sensação de já ali ter estado. Foi então que recordei. Foi à cerca de vinte anos que passava na mesma rua. O cheiro era identico. Malmequeres e Azedas por entre os pequenos arbustos, rodeavam as casas improvisadas de quem não têm mais do que um tecto falso para dormir. Por entre as poucas barracas, com os pés na areia seca lembrei-me de ti. Seguravas a minha mão. Passavamos varias vezes por ali sempre que iamos aos recados para o almoço ou para o jantar. Nunca me deixavas perder e falavas muito comigo. Adorava que falasses comigo. Talvez por isso, desde que te foste seja tão dificil para mim partilhar palavras a vulso. E são tão importantes, as palavras. Lembras-te? Até no nosso silencio nos entendiamos perfeitamente. As palavras recitavam-se em gestos e olhares que me marcarão sempre. Como o sangue é forte. Como pulsa. Como nos encontra nesta era digital de crenças desmistificadas. Foste tu que me ensinaste tudo o que uma jovem podia aprender. Hoje lembrei-me de ti. Mais que uma mãe, com a tua partida perdi todo o alicerce e nasci denovo, mais fria e menos faladora. Entendes agora porque sou assim?
20110307
36
Voltaste a pegar-me na mão, nem sei bem como. Talvez sejam os teus olhos de olhar perfeito. A forma como me vês. Como me projectas. E ao mesmo tempo não me prendes. Não me queres só para ti. Cativa, não! Queres apenas um momento comigo. Levas-me a fazer sempre algo diferente, com pessoas diferentes. Gosto de me sentir normal ao pé de ti, sem ter demasiadas expectativas, sem haver demasiada exigência. Sou eu ao pé de ti, com todo o bom ou todo o mau que tiver de vir. Apercebi-me disso e aceitei o teu presente, com o qual sei lidar. Nos teus lençóis de flanela me lavaste em conforto. Um exorcismo do passo falhado. Extravasei a minha dor. E tu a tua. Começa a ser um habito que os infortúnios da vida sirvam para nos unir, quando já rara é a coisa que corre como queremos. Há uma certa tristeza implícita nos nossos encontros, como se não pudéssemos repeti-los consecutivamente, como se nos levassem a uma espiral de auto-destruição. Eu sei. Não é saudável. Eu não sou saudável. E enquanto não sentir que estou a construir algo serei sempre um pedaço incompleto de qualquer coisa.
20110306
35
Fúria. Há uma calma silenciosa à superfície. Como nos dias de trovoada, antes mesmo de começar a chover. Permanece a atmosfera abafada. Eriçam-se os pelos na parte de trás da nuca. Calafrio. É a sensação que tenho neste meio termo de não me lembrar de nada, pois a lembrança é inimiga da perfeição. Puxa-me para baixo. Para onde o eco é assustadoramente real, alto. Imenso. A presença das pessoas trás, por tabela, a desvantagem de me preencherem espaços dos quais já não me lembrava. A essas lacunas de ar, dantes hermeticamente fechadas, acresce agora a responsabilidade de as sentir, de ter de me importar com elas. Com essas diferenças vivo o acordar para a realidade da qual queria fugir. Da responsabilidade para comigo mesma. 'Ódio' é uma palavra forte, mas mexeu comigo o espaço para o qual chamaste a atenção. Apontaste-o e agora não consigo mais tirar o olhar apático dele e do que não tenho. 'Odeio-te' é uma expressão forte mas não sei que dizer senão isso mesmo. Mexeste comigo e a fúria é tudo o que me alimenta.
20110305
34
Estou de saida. Para fora do sitio que foste tu e a tua breve historia de encantar. Desligo as luzes com pesar e um ultimo suspiro do que pensei que fosses. Tambem eu me sei enganar às vezes acreditanto demais nas verdades de pessoas que desconheço. A porta fecha-se. Ao mesmo tempo todas as outras se fecharam. Do carro, da casa, do caminho que tinha traçado para entrares na minha vida. Nunca me envergonhei da minha maneira de me entregar. Envergonho-me porém da minha falta de discernimento. Gostava de conseguir acreditar que foste apenas mais uma ilusão traduzida em matéria palpavel. Um holograma do bonito de tudo o que podia ser. Não foi. Caí em mim, a tempo de me levantar. Doí-me o corpo e não só. Vou dar um mergulho para me refrescar e esperar que a agua leve tudo aquilo com que não quero lidar.
33
Acho inclusivé que seria explendido todo o teu corpo nu contra o meu. Na meia luz da minha sala se daria a simbiose de nós as duas. Livres de inibições, de problemas, seriamos donas do querer e da luxuria enfim protagonizada. Sei-te na minha vida. Eu na tua estarei. Aguardo, na calma com calafrios, o tempo de nós as duas. Loucas e soltas num momento irrepreensivel e memoravel. E apenas isso. Momento.
20110304
32
Dançámos um tango. La Revancha del tango. Nenhuma de nós, fui levada a crer, sabia dança-lo. E eu fui e tentei. Os primeiros passos pareciam-me dificeis. Flectia as pernas, arquiava as costas e nada. Não havia pé de dançarina em mim e eu começava a stressar. Decidi largar tudo e escutar a musica. Senti-te perto. A minha boca começou a ficar avermelhada e eu salivava por ti. Puxei-te mais perto. De dentro do teu ventre senti as passadas da musica como nunca tinha ainda experienciado. Daí dançamos uma noite inteira até cairmos no chão. Exaustas. Suadas. Arfavamos avidamente o oxigenio. Eu sorria extaziada para mim mesma. Quando me voltei para ti estavas a levantar-te do chão. Olhei para ti em sinal de interrogação e tu respondeste em palavras "Afinal não sabias mesmo dançar". Abotoaste a camisa preta e caminhaste para a porta. Eu olhava para ti, ainda no chão, incredula. Sem reacção. Tu abriste a porta e passas-te por ela sem sequer olhar para tras. Para mim, daquele chão até aquela porta foram quilometros cada segundo interminável em que te afastavas mais e mais de mim. Preferiste não me olhar misericordiosamente. Saiste simplesmente. Como quem sai para comprar tabaco. Sei hoje o porquê de tanto ter evitado o teu contacto. Hoje foi o dia em que me deste a razão.
20110303
31
Saio da porta para fora. Corro até ao caminho de pedra. Ha tanta humidade no ar que parece que me encho de agua por dentro. O sol, no ceu com algumas nuvens, vem brindar-me com a sua cor amerelo-mel de inicio de manhã. Sabe bem sentir o sol depois de tanta chuva. Já estava tão cansada da chuva e do frio que dela vinha que hoje, ao acordar, temi que fosse somente uma copia de outro dia qualquer. Chego ao carro com a estranheza de me estar a esquecer de algo. Não esqueci, na verdade. Arranco para a estrada, sabendo perfeitamente o que deixo em casa e em como isso está bem guardado. Um recheio.
20110302
30
É fumo que sai. Respiro. Dou mais um trago. Volto a tragar. Oiço o som descontinuado - como descompasso tambem - e descontraido da Beth Gibbons, sempre presente. Nunca ninguem me disse o que a verdade devia ser, mas disseram-me uma coisa "tem cuidado com os novelos, quando damos por nós nem nos mexemos, de tão enleados que estamos". A culpa é minha, eu sei, por me continuar a mexer e a envolver cada vez mais nele. Fazem-me sentido todos os sons agrestes, cada passagem. A nossa abertura é sempre maior para a vida conforme passa o tempo, e a minha é enorme. Vejo, com clareza, a minha inegavel maneira de absorver momentos e pessoas. Sorrio. Não, não podes decidir por mim. A porta esta fechada e tu não tens chave. Parabenizo quem se opõe à minha identidade, quem de mim difere, pois parece resultar tão bem não ter uma espinha dorsal. As coisas tendem a ser mais faceis assim.. Isto nunca foi a luta dos mais fortes, quando eu não sou bicho, mas sim a paisagem. E a estação já está a mudar.
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