20110523

51

Era uma vez, não há muito tempo, uma menina que sonhava. Era jovem, a menina. Nos seus sonhos era levada, de par em par, a trajectos alcansaveis, por um esticar de um braço, de sonhos maravilhosos. E ela sonhava. Sonhava muito. Pensava no futuro que ia ter. Na família que poderia ter. No amor inabalável e inquestionavel que sem sombra de duvidas sentia que era para um sempre. Perfeito. Sonhava, menina que era, que com o tempo todos os contratempos do mundo chegariam a um fim, e o bem triunfaria. O trabalho organizar-se-ia por fim. Créditos seriam atribuídos. Todo o esforço valeria a pena. Toda a dor. Toda a magoa. Tudo teria sido em prol do seguimento natural da vida. Tudo sonhado, projectado. Para um dia poder adormecer nos braços. Naqueles braços. E descansar o sono dos justos. Mas a menina desapareceu. Tal como o sonho. Foi-se para não voltar. E silencio. Nada mais. Hoje não existe nenhuma menina. Apenas uma mulher de casca remotamente parecida. Um invólucro. Como o papel de um rebuçado depois de o comermos: um pedaço de plástico sem propósito de existir mas que resiste a décadas de desintegração.

20110518

50

Ouvi as tuas gentis palavras. Nessa manhã não esperava ouvir absolutamente nada de bom ou esperançoso. As tuas primeiras palavras do dia. Nascidas por entre os teus lábios exóticos. Para mim brotou, de entre o teu ser, o verbo. Terno e preocupado. Respondi de imediato que estava bem e que não haviam motivos para preocupações. Existem coisas piores, garanti-te. Tu sorriste. Forçaste-me então a reparar novamente no teu olhar curiosamente invasivo. Se te tivesse que descrever, para outros olhos imaginarem, pintar-te-ia como a senhora e dona da calma do mundo. Uma Sara Tavares que não tocas notas mas sim corações, de forma contagiante. O teu cabelo apanhado relembrar-me-ia de tempos passados, qual Odisseia. Acredito que passa por ti uma corrente de um rio no qual nasce a tranquilidade. No fundo, só posso abençoar aquele que te merecer.