20110429

49

Voltas, voltas e voltas a girar.
Apareces de novo para mim.
Como nuvem,
sopro doce de ser.
Tanto que te vejo em mim.
Em palpitações.
Antecipações.
Derramas o teu mel por mim,
sem saber,
e eu consumo o teu dom natural com fervor.
Se o meu olhar fosse fatal,
estarias morta, certamente,
de amores por mim,
assim que me visses.

48

Hoje senti o passar do tempo correr por nós. Num ápice. Como se, simplesmente, todos estes anos de distancia me tivessem caído na consciência. Somente hoje. Naquele momento. Falámos, como outrora, naquele mesmo banco que tantas vezes nos ouviu, a nós e às nossas conversas, ora intensas ora amenas. Falávamos barbaridades do dia-a-dia, do alheio, de nós, das nossas vidas de hoje em dia e de como as levamos para a frente, ou ao menos não para trás. Tudo me pareceu, um tanto ou quanto finito, toda aquela conversa. É engraçado senti-lo, no mínimo: Como tudo o que fazemos para sermos felizes nos leva para longe do felizes que fomos um dia e de como isso é bom. Ir embora dos sentimentos demasiado grandes, sufocantes. Foram momentos que demoraram. Demoraram para desaparecer e hoje são apenas lugares vazios numa estante. São livros que desapareceram com o passar dos anos, quis Deus fazê-lo por bem, e gradualmente, como se de memorias se tratassem. Aos poucos foste assim tornando-te mais fraca em mim. Primeiro a admiração, o orgulhos, o brio com que te via. Depois o carinho, o amor. A seguir passou a uma amizade temperada numa abundância de ausências. E hoje, somos conhecidas. Só. E sabes que mais, não encontro razões para estares presente na minha vida se na verdade nunca o foste. Presente.. Nunca quis algo deslavado como a nossa pseudo-amizade tem sido. Não me tem sabido bem. Entristeces-me, por agires de acordo com quem és. Mas se eu quero ser feliz, isso passa por não te ver. Entendo, por fim, que nos tornámos em meras conhecidas.. e conhecidas, há muitas.

20110411

47

Estou cansada. Dentro desta cidade, mãe ausente, dos meus momentos mais secretos, me encontro debaixo das luzes amarelo-torradas dos candeeiros nocturnos. Porque será que quero tanto fugir. Fugir.. Fugir desta pessoa que sou, com tanta força? No final de contas penso que acabo por perceber que é (que sou) inevitável! Eu sou assim. E que assim serei. E se não me aceitar verdadeiramente, como poderiam outras faze-lo?! Na verdade, serei sempre assim, inevitavelmente relaxada, longe dos objectivos de vida de tantas outras. E tantas foram. Estou cansada de te procurar em todas e constatar, a triste realidade, que não és. O 'tu' que desejo nem sei se existe ou se se revelará em alguma altura. Por isso vou ficando. Definhando. Passando. Correndo kilometros. Conduzindo asfaltos. E as luzes amarelo-torradas dos candeeiros de rua são as minhas testemunhas. E o frio é o meu cobertor. E tu és a minha essência perdida. E eu?! Sou tua! E nem sequer te conheço..

20110405

46

É difícil dizer com que linhas nos cosemos. A adaptação da pessoa ao tempo e ao espaço muda-nos, tal qual muda a estação. Somos diferentes, eu e tu. Num expoente elevado à profundidade do que se passou. Observando à lupa de cada uma, ora se torna positivo ora negativo. Mas de entre todas as adversidades, e se te pudesse dizer, neste pequeno sitio, espaço de tempo de antena (que ninguém nos ouve, ou lê) dir-te-ia que sinto saudades, esquecendo toda a dormência que me paralisa.

20110402

45

Ao inicio é fácil. Falamos. Trocamos olhares breves. Sorrisos de soslaio para ti. Então eu sigo. E tu segues-me. Nada é dito enquanto caminhamos longe uma da outra. A passada é rápida, e de repente ainda mais depressa. Entro! Primeira porta de prédio destrancada.. vão de escadas. Tu apresentas-te, segundos depois, à minha frente. Reparo no teu cabelo fora do lugar. Desalinhado. Adoras a perseguição. Tal qual a minha pessoa, alimentas-te dela. Encosto-me à parede de mármore fria, mãos atrás das costas. Os meus olhos jogam fogo na tua direcção. Sentes-me a chamar-te e vens. Sem palavras. Sem gestos. Num segundo estas junta a mim. Agrafas-me. Deixas-me sem espaço para fugir. 'Delicias-me' penso. Devoras o meu pescoço e eu já parti. Não. Não posso! Puxo-te o cabelo na parte de trás da nuca e observo-te. Sobrancelha levantada e olhar cheio de tesão. "O que é que pensas que estas a fazer?", pergunto-te. Não aguentamos e desmanchamo-nos a rir. As duas. Segue-se um beijo longo, cheio de faltas de ar, e uma tarde fresca de primavera.