20110306

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Fúria. Há uma calma silenciosa à superfície. Como nos dias de trovoada, antes mesmo de começar a chover. Permanece a atmosfera abafada. Eriçam-se os pelos na parte de trás da nuca. Calafrio. É a sensação que tenho neste meio termo de não me lembrar de nada, pois a lembrança é inimiga da perfeição. Puxa-me para baixo. Para onde o eco é assustadoramente real, alto. Imenso. A presença das pessoas trás, por tabela, a desvantagem de me preencherem espaços dos quais já não me lembrava. A essas lacunas de ar, dantes hermeticamente fechadas, acresce agora a responsabilidade de as sentir, de ter de me importar com elas. Com essas diferenças vivo o acordar para a realidade da qual queria fugir. Da responsabilidade para comigo mesma. 'Ódio' é uma palavra forte, mas mexeu comigo o espaço para o qual chamaste a atenção. Apontaste-o e agora não consigo mais tirar o olhar apático dele e do que não tenho. 'Odeio-te' é uma expressão forte mas não sei que dizer senão isso mesmo. Mexeste comigo e a fúria é tudo o que me alimenta.

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